Polícia amplia ofensiva contra o crime organizado e aposta em integração para atingir estruturas financeiras

Luc Morevain
Luc Morevain
Polícia amplia ofensiva contra o crime organizado e aposta em integração para atingir estruturas financeiras

Operações recentes da PF mostram que o combate às organizações criminosas vai além das prisões e busca atingir dinheiro, logística e patrimônio.

A atuação integrada das forças policiais voltou ao centro do debate sobre segurança pública nesta semana, depois de operações da Polícia Federal atingirem organizações criminosas em diferentes regiões do país. Entre os casos de maior dimensão está a Operação Força Integrada IV, deflagrada em 16 de setembro, que mobilizou bases da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO) e resultou no cumprimento de mandados de prisão, busca e apreensão e medidas de bloqueio patrimonial. (Serviços e Informações do Brasil)

A movimentação também incluiu investigações contra tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e grupos que utilizariam estruturas empresariais ou logísticas para sustentar atividades criminosas. Diante desse cenário, uma dúvida ganha relevância para o cidadão: por que as polícias estão cada vez mais concentradas em dinheiro, bens e redes de apoio, e não apenas na prisão de suspeitos? A resposta ajuda a entender como funciona atualmente o combate ao crime organizado e quais são os limites dessas operações.

Por que as operações contra organizações criminosas estão mirando dinheiro e patrimônio

A Operação Força Integrada IV oferece um exemplo claro dessa mudança de abordagem. Segundo a Polícia Federal, a ação coordenou 20 bases da FICCO em 19 estados e investigou tráfico de drogas, tráfico de armas, lavagem de dinheiro, organizações criminosas violentas e outros delitos relacionados. Foram expedidos 173 mandados de busca e apreensão e 106 mandados de prisão, além de medidas patrimoniais superiores a R$ 508 milhões em bloqueios e sequestros de bens vinculados aos grupos investigados. (Serviços e Informações do Brasil)

A lógica por trás desse tipo de atuação é atingir a capacidade operacional das organizações, e não somente seus integrantes em determinada etapa da investigação. Uma estrutura criminosa pode continuar funcionando quando determinados membros são presos caso exista dinheiro disponível para financiar transporte, aquisição de drogas ou armas, pagamento de colaboradores e outras atividades. Por isso, o rastreamento de recursos e a identificação de patrimônio suspeito passaram a ocupar espaço importante nas investigações de maior complexidade. Isso também explica a participação de diferentes órgãos e especialidades, que podem reunir informações policiais, financeiras e patrimoniais para reconstruir a estrutura investigada.

Outro exemplo recente foi a Operação Old School, realizada dentro da mesma mobilização nacional. A FICCO de Mato Grosso do Sul cumpriu mandados em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pernambuco, investigando um grupo suspeito de tráfico de drogas e lavagem de capitais. Durante a investigação, foram apreendidos mais de 250 quilos de cocaína e 60 quilos de haxixe, enquanto a Justiça determinou o sequestro de R$ 75 milhões em bens e valores. (Serviços e Informações do Brasil)

Como a integração entre Polícia Federal, polícias estaduais e outros órgãos funciona

A integração é importante porque organizações criminosas raramente ficam restritas a uma única cidade ou estado. Uma investigação pode começar com uma ocorrência local e, conforme surgem informações sobre fornecedores, transportadores, financiadores ou mecanismos de lavagem, revelar conexões que atravessam fronteiras estaduais e até nacionais. As FICCOs foram estruturadas justamente para aproximar diferentes forças de segurança e permitir o compartilhamento de informações e a realização coordenada de ações.

A operação realizada em 16 de setembro demonstra essa característica. Além da atuação nacional coordenada, as forças integradas reúnem instituições que podem incluir Polícia Federal, polícias civis e militares, polícias penais e outros órgãos de segurança, dependendo da composição de cada força. No caso de Mato Grosso do Sul, a própria PF informa que a FICCO reúne Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Penal Estadual, Polícia Civil, Polícia Penal Federal, Secretaria Nacional de Políticas Penais e Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande. (Serviços e Informações do Brasil)

Essa cooperação também aparece em investigações com dimensão internacional. Em 17 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Eredità, com apoio de autoridades italianas, para investigar uma estrutura transnacional que, segundo a investigação, estaria ligada ao envio de grandes carregamentos de cocaína da América do Sul para a Europa. Foram cumpridos sete mandados de prisão preventiva e cinco de busca e apreensão. (Serviços e Informações do Brasil)

O ponto importante para o cidadão é que uma investigação desse tipo depende de informações acumuladas durante meses ou anos, além de autorização judicial para medidas que restringem direitos. Uma operação policial, portanto, representa uma etapa de um processo investigativo e judicial mais amplo, e não significa, por si só, que todos os investigados tenham sido definitivamente responsabilizados. A presunção de inocência permanece válida até eventual condenação definitiva.

O que essas operações revelam sobre os próximos desafios da segurança pública

As ações recentes também mostram que o combate ao crime organizado depende cada vez mais de capacidade investigativa, inteligência e acompanhamento de fluxos financeiros. Em uma operação realizada no Rio Grande do Sul, por exemplo, a Polícia Federal investigou um grupo suspeito de operar uma estrutura financeira paralela fora dos canais autorizados do Sistema Financeiro Nacional. A Operação Naqdi cumpriu seis mandados de busca e apreensão e teve bloqueio de até R$ 25 milhões em contas, além de restrições sobre veículos e imóveis. (Serviços e Informações do Brasil)

Outro caso recente envolveu uma investigação no Pará sobre possível infiltração criminosa no setor de produção e comercialização de dendê. Na Operação Termidor, a PF e a Receita Federal cumpriram nove mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão, enquanto a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 153 milhões e a suspensão das atividades econômicas de 11 empresas investigadas. (Serviços e Informações do Brasil) Esses exemplos indicam que o crime organizado pode utilizar diferentes setores econômicos e estruturas empresariais, o que exige investigações que ultrapassem a abordagem tradicional baseada apenas na apreensão de drogas ou na prisão de executores.

Ao mesmo tempo, operações policiais precisam ser avaliadas pelo que acontece depois do cumprimento dos mandados. Prisões preventivas, apreensões e bloqueios patrimoniais são instrumentos previstos no sistema de Justiça, mas os resultados definitivos dependem do andamento dos processos, da produção de provas e das decisões judiciais. Para a segurança pública, o desafio é transformar operações pontuais em capacidade permanente de investigação, prevenção, desarticulação financeira e redução da reincidência criminal. A atuação coordenada pode ampliar essa capacidade, mas não substitui políticas de prevenção, investigação qualificada, gestão prisional e respeito às garantias legais.

A movimentação policial desta semana reforça que o enfrentamento ao crime organizado está se tornando cada vez mais baseado na identificação de redes, recursos e estruturas de apoio. As operações Força Integrada IV, Eredità, Old School e outras ações recentes mostram diferentes formas de investigação, desde o tráfico internacional até a lavagem de capitais e o uso de estruturas econômicas suspeitas. (Serviços e Informações do Brasil)

Para o cidadão, entender essa dinâmica é importante porque uma operação policial é apenas uma parte de uma estratégia maior de segurança pública. O resultado efetivo depende da continuidade das investigações, da responsabilização judicial quando houver provas, da recuperação ou bloqueio de recursos ilícitos e da capacidade do Estado de impedir que novas estruturas ocupem o espaço deixado por grupos desarticulados. O cenário recente mostra, portanto, uma polícia cada vez mais voltada à inteligência e à cooperação entre instituições, mas também evidencia a necessidade de acompanhar o que ocorre depois das manchetes e das operações.

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