Novas ferramentas ampliam a fiscalização de unidades prisionais e mostram como dados e tecnologia estão mudando a segurança penitenciária.
A tecnologia deixou de ocupar apenas um papel secundário na segurança pública e passou a integrar diretamente estratégias de prevenção e controle do sistema prisional brasileiro. Nos últimos dias, duas iniciativas chamaram atenção: a interceptação de drones usados para tentar levar celulares e drogas a presídios de Mato Grosso do Sul e a apresentação de um novo sistema para automatizar informações penitenciárias em âmbito nacional. Os episódios revelam uma transformação importante: o combate a ilícitos dentro das unidades já depende cada vez mais de equipamentos capazes de monitorar ambientes, processar informações e apoiar decisões em tempo real. A dúvida que surge é até onde essa modernização pode chegar e se ela será suficiente para enfrentar estruturas criminosas que também utilizam tecnologia. A resposta passa não apenas pela compra de equipamentos, mas pela integração entre inteligência, dados, treinamento de servidores e políticas permanentes de segurança.
Drones mostram como a tecnologia mudou os desafios dentro dos presídios
A utilização de drones para tentar transportar drogas, celulares e outros materiais ilícitos para dentro de unidades prisionais é um exemplo claro de como o crime também acompanha a evolução tecnológica. Em Mato Grosso do Sul, a Força Penal Nacional e a Polícia Penal estadual frustraram nove tentativas em presídios de Campo Grande e Dourados entre a noite de 25 de agosto e a madrugada do dia 26. A informação foi divulgada pela Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), que informou que as ações ocorreram pelo terceiro dia consecutivo e resultaram ainda na apreensão de celulares e entorpecentes, além da prisão de um suspeito. (Serviços e Informações do Brasil)
O episódio é relevante porque evidencia uma mudança no tipo de ameaça enfrentada pelos estabelecimentos penais. Durante décadas, o controle de entrada esteve concentrado em revistas físicas, fiscalização de visitantes, inspeções estruturais e equipamentos convencionais. Agora, as equipes precisam considerar também objetos que podem sobrevoar muros e áreas de segurança sem depender de acesso físico ao presídio. A resposta tecnológica, portanto, passa a ser necessária justamente porque o método utilizado para tentar burlar a segurança também evoluiu. Isso não significa que drones, sensores ou sistemas eletrônicos substituam policiais penais, mas que podem ampliar a capacidade de vigilância e permitir que os profissionais concentrem esforços em situações que exigem análise humana.
A estratégia federal já aponta nessa direção. A SENAPPEN informou que 138 unidades prisionais consideradas estratégicas estão inseridas em uma política nacional de modernização tecnológica, com investimentos em equipamentos, viaturas e soluções voltadas à fiscalização, ao controle de acesso e à capacidade operacional das polícias penais. Entre as iniciativas estão equipamentos de raio X e drones destinados a diferentes estados. (Serviços e Informações do Brasil)
Inteligência artificial e dados entram na rotina da segurança penitenciária
O avanço tecnológico no sistema prisional não se limita aos equipamentos usados fisicamente nas unidades. Em 27 de agosto, a SENAPPEN realizou dois webinários para apresentar o Sistema de Automatização do SISDEPEN, chamado SAS, a gestores e responsáveis pelos dados penitenciários. Mais de 300 servidores participaram das atividades, que trataram das funcionalidades e dos processos de gestão das informações sobre vagas e pessoas presas. (Serviços e Informações do Brasil)
A mudança pode parecer menos visível do que a presença de drones, mas possui importância estratégica. Um sistema penitenciário administra uma quantidade enorme de informações sobre população carcerária, vagas, movimentações e estrutura das unidades. Quando esses dados são coletados de maneira fragmentada ou dependem excessivamente de processos manuais, aumenta o risco de inconsistências e demora na produção de informações. A automatização pode ajudar a padronizar procedimentos, acelerar a atualização de registros e oferecer aos gestores uma visão mais organizada do sistema. Na prática, isso pode melhorar o planejamento de vagas, a distribuição de recursos e a identificação de problemas que exigem resposta administrativa.
A tecnologia também pode funcionar como instrumento de inteligência, mas é importante diferenciar automatização de decisão automática. Sistemas digitais podem organizar dados, identificar padrões e facilitar consultas, porém decisões que envolvem liberdade, segurança, classificação de risco ou direitos individuais precisam permanecer submetidas às regras legais e à avaliação das autoridades competentes. O uso de tecnologia no sistema prisional exige, portanto, não apenas eficiência, mas também governança, segurança da informação, controle de acesso e rastreabilidade.
Esse cuidado ganha ainda mais importância à medida que ferramentas de inteligência artificial passam a integrar equipamentos de segurança. Um exemplo está no drone entregue ao Espírito Santo pela SENAPPEN em agosto. O equipamento possui câmera termal, zoom óptico, sensores, comunicação de longo alcance e recursos de inteligência artificial destinados a auxiliar no reconhecimento de alvos e na automatização de missões. (Serviços e Informações do Brasil)
O que essa modernização pode mudar na segurança pública brasileira
A principal transformação provocada pela tecnologia é a possibilidade de conectar diferentes camadas de segurança. Um drone pode ampliar a capacidade de vigilância externa, enquanto equipamentos de inspeção ajudam a localizar objetos ocultos e sistemas digitais organizam informações necessárias para a gestão penitenciária. Quando essas ferramentas trabalham de maneira integrada, a segurança deixa de depender exclusivamente de ações isoladas e passa a funcionar com base em informações produzidas por diferentes fontes. É justamente essa integração que pode aumentar a capacidade preventiva do Estado diante de organizações criminosas que utilizam presídios como pontos de comunicação ou articulação.
A experiência recente do Espírito Santo ajuda a dimensionar essa estratégia. Segundo a SENAPPEN, o estado recebeu um drone avaliado em aproximadamente R$ 146 mil, equipado com câmera grande angular, zoom, câmera termal, telêmetro a laser, iluminador infravermelho e recursos de inteligência artificial. Também foi apresentado um kit de varredura estimado em R$ 578 mil, destinado a inspeções e ações de contrainteligência, com previsão de entrega até setembro. Os equipamentos devem beneficiar sete unidades do complexo penitenciário capixaba. (Serviços e Informações do Brasil)
A mesma operação realizada no Espírito Santo também demonstra que tecnologia precisa estar associada a trabalho humano. Durante a Operação MUTE, 105 policiais penais participaram de revistas em 102 celas, e a SENAPPEN informou que nenhum aparelho celular foi encontrado nas unidades vistoriadas. Em âmbito nacional, sete edições da operação realizadas entre maio e julho mobilizaram 2.700 policiais penais, alcançaram 24 unidades, resultaram na revista de 1.297 celas e levaram à apreensão de 817 celulares. (Serviços e Informações do Brasil)
O futuro da segurança prisional tende, portanto, a ser menos baseado em uma única ferramenta e mais dependente de ecossistemas tecnológicos. Sensores, drones, sistemas de dados, equipamentos de inspeção e inteligência artificial podem ampliar a capacidade de prevenção, mas não eliminam a necessidade de servidores preparados, protocolos claros e fiscalização permanente. Também será necessário discutir transparência, proteção de dados e limites para o uso de tecnologias capazes de identificar pessoas ou comportamentos.
A modernização tecnológica, por si só, não resolve problemas estruturais do sistema prisional. Ela pode, porém, oferecer instrumentos mais eficientes para que o Estado conheça suas unidades, acompanhe movimentações, identifique vulnerabilidades e responda com maior rapidez aos riscos. O desafio será transformar equipamentos e sistemas em política pública contínua, evitando que investimentos pontuais desapareçam por falta de manutenção, integração ou capacitação.
O que está acontecendo nos presídios brasileiros revela uma disputa tecnológica que tende a ganhar importância nos próximos anos. De um lado, organizações criminosas encontram novas formas de comunicação e transporte de materiais; de outro, as forças de segurança incorporam drones, inteligência artificial, automação e análise de dados. Para o cidadão, o impacto desse processo pode parecer distante, mas ele está diretamente relacionado à capacidade do Estado de impedir que unidades prisionais sejam utilizadas para coordenar atividades criminosas. A tecnologia não substitui a segurança pública tradicional, mas está rapidamente se tornando parte essencial dela.